Em 2007 o Edu Lopes me ligou pedindo um favor: dar uma assistência para o Luquinhas, que estava colando sozinho em São Bernardo para correr um campeonato.
Eu nunca tinha conversado pessoalmente com o Luquinhas, mas ele já havia me encantado na primeira vez que o vi, em 2002, na pista do Aterro do Flamengo.
Me lembro nitidamente daquela criança linda chegando com o pai carregando uma bolsa transparente com o skate. Guardei o nome dele porque estava estampado nas costas, acima do logo da Arroba Skateshop, a loja que o apoiava na época.
O Luquinhas não me telefonou quando chegou em São Paulo, mas eu fui no evento, me apresentei e falei que podia contar comigo se precisasse de algo.
Ele era um adolescente bem maduro, sério e muito focado. Eu não me lembro de ver ele interagindo com os outros skatistas e tive a impressão que ele não saiu de casa para brincar, ele sabia que para chegar nesse evento foi um sacrifício coletivo que não poderia ser desperdiçado.
Dessas lembranças iniciais, era evidente que ele tinha um propósito, agarrar a oportunidade para vencer na vida honrando os seus.
E tudo isso ficou escancaradamente perceptível quando estive na realização de um dos maiores sonhos DELE sábado, dia 22 de março, a inauguração da Santo Amaro Skatepark, a pista de skate da comunidade DELE, idealizada pelo projeto social DELE, o Instituto Ademafia.

Ademar Lucas tem noção dessa grande responsabilidade DELE. Mas agora sem tanta pressão, pois é tudo natural. O que ele plantou de bom ao longo da vida, agora brota voluntariamente de diversas formas. Até quando surge algo que parece estar errado, é que o fado quis assim. No fim tudo dá certo, até melhor que o planejado inicialmente.
Favelas são realidades em todas as metrópoles brasileiras, e vistas com desconfiança pela maior parte da população. Mas graças ao skate, tive oportunidade de visitar a comunidade da Rocinha em 2001, num evento que o finado Wellington Sinistrinho organizou na rampa. O contato com a comunidade foi uma experiência que mudou minha vida. E a minha reportagem desse evento foi destaque na home do UOL, mesmo sem sensacionalismo, só reportando sobre o skateboard puro num lugar mágico, com pessoas maravilhosas.
Depois disso, ficou normal pra mim frequentar comunidades, inclusive o Santo Amaro, quando visitei o Luquinhas em 2010.
Aliás, essa pista do Santo Amaro é um ótimo argumento para visitar ou conhecer uma comunidade. Além do propósito social com o instituto, a pista acaba impactando também no turismo e economia local.
Comunidades são os lugares com maior concentração de pessoas carismáticas, e no Morro de Santo Amaro não é diferente, o astral lá é ótimo e todo mundo acolhedor.

Santo Amaro Skatepark, Rio de Janeiro. (Sidney Arakaki)
O plano para construir a pista é antigo, rendeu até um documentário, o “Santo Amaro era Skatista”, exibido no canal Globonews, e que agora está disponível no próprio canal da Ademafia.
Mas construir uma pista de skate dentro do morro era uma missão quase impossível. “Quase” porque foi construída e provado que foi possível com ajuda da Tangente Skateparks, o projeto social Elo Solidário e o mutirão local.
O esforço braçal para levar os materiais e a betoneira até o canteiro de obras foi uma empreitada histórica que fez aumentar o respeito da comunidade pelos skatistas.
Como a betoneira era grande e pesada, não conseguia passar pelos becos do morro. Então os skatistas e colaboradores tiveram que içar por um barranco, depois de acessar por um prédio lateral.
Depois que o equipamento e materiais chegaram no canteiro de obras, tudo ficou suave para a confecção da sonhada pista de skate do Morro Santo Amaro.

A comunidade que acompanhou a transformação do espaço e se envolveu na obra estava em festa sábado. Caminhando pelos corredores, escutei duas moradoras comentando, “que evento lindo dos meninos do skate ali, você foi ver? mas cadê o jornal nacional cobrindo? eles só vem cobrir desgraça, isso que eles querem mostrar“.
Também senti o quanto o Luquinhas é querido no morro. Em qualquer comércio ou lugar que você para lá dentro e conversa com moradores, eles puxam assunto de skate e dizem com orgulho que conhecem o Lucas desde criancinha, que adoram a família dele, pessoas espetaculares que criaram os filhos exemplares.
O cara, simplesmente transformou uma área que era usada como lixão num espaço de convivência. Ele conseguiu conscientizar os moradores que deviam descartar o lixo fora do morro, não lá dentro. Com essa conquista, Luquinhas espera que outras comunidades sigam o exemplo, com as pessoas pensando em prol do lugar, ressignificando espaços.
E é muito louco que a pista e o instituto foram construídos exatamente numa das locações do “We Are Blood“, uma década atrás.

Um detalhe importante, é que o Instituto Ademafia tem raízes no clã de skate liderado pelo Ademar Luquinhas que ficou popular com o canal do Youtube. E eu fui para o evento de inauguração da pista como convidado do Socializando, o time de skatistas do projeto Social Skate, que é a maior referência do ramo.
Os dois principais projetos sociais de skate do Brasil (do mundo, provavelmente) são os maiores parâmetros não à toa, pois são liderados por skativistas genuinamente preocupados com a coletividade que nasce do convívio das sessões de skate.

Durante o sábado todo o Luquinhas estava nas nuvens, realizando seu sonho, rodeado dos seus melhores amigos. Foi emocionante demais pra mim poder acompanhar esse dia e refletir sobre a trajetória dele e o fantástico mundo de Ademar no Santo Amaro.
Na segunda-feira, Lucas ainda estava flutuando quando me despedi dele.
Eu esqueci de perguntar se ele já tinha andado na pista, mas ele comentou sobre a o dia da festa.
Está caindo a ficha. Dois dias antes da inauguração eu chorei muito a noite lembrando do meu pai, da minha avó. E do quanto esse corre representa pra minha família. A gente poder estar colaborando com o desenvolvimento, com a história da comunidade. Nós que temos uma história de pessoas que vieram do nordeste pra tentar a sorte no Rio. Que fez o corre de poder conseguir um terreninho. Primeiro, meus pais moravam num barraco sem banheiro. Minha mãe tinha que andar pra caramba pra poder pegar água, trazer na cabeça, lavar roupa pra poder conseguir grana. Meu açougueiro. E mesmo assim, com dificuldades, desafios, minha família, meus pais criaram seis filhos, eu sou o caçula. E através do skate, de todo esse movimento, toda essa história e todas essas pessoas, e tudo, todo esforço de quem veio antes, essa pista nasceu e vai mudar a história de muita gente. E vai ser uma coisa que no futuro vai estar resgatando a história da nossa família. Isso é bonito, é marcante. Isso é legado. Então hoje, sem meu pai aqui, e minha avó, e outras pessoas, eu penso muito nisso. Que uma hora a gente não vai mais estar aqui, e o que a gente vai deixar. Então, seguindo os passos de quem veio antes, estamos deixando as pegadas em boas direções, incentivando as pessoas também a estar buscando a melhoria pra si e pra nós, pro coletivo. Então, é a realização – era um sonho, agora realidade. Muito feliz em ver as crianças podendo desfrutar, ter esse acesso a cultura do skate na porta de casa. Seja cada vez mais comuns os eventos, esse intercâmbio de pessoas, histórias. É isso, estou grato e extremamente realizado.
Pra finalizar, Cochi Guimarães, um dos fundadores da Ademafia, está finalizando um documentário sobre o Santo Amaro. Não posso dar spoiler. Mas aproveito para sugerir que você faça uma doação para apoiar as aulas de skate do projeto pelo Pix: CNPJ 40190215/0001-37
Mande sugestões, dúvidas, etc, para contato@skataholic.com.br

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